O Rito guardião do Brasil
O Rito Moderno no Brasil se confunde com a própria história do Grande Oriente do Brasil que o adotou como Rito Oficial desde sua fundação em 1822, época em que obteve do Grande Capítulo Francês a autorização para trabalhar os Altos Graus do Rito Francês ou Moderno no Brasil.
Após a fundação da Grande Loja de Londres, em 1717, a Ordem Maçônica expandiu-se rapidamente na Inglaterra e na Escócia, e no restante do continente europeu. A Maçonaria foi introduzida na França pelos britânicos por volta de 1725. Já em 1726 era instalada em Paris, uma Loja com o nome de São Tomás, por intermédio de Charles Radclyffe, mais tarde Conde de Derwentwater (Naudon 1981) e que viria a ser, posteriormente Grão-Mestre da primeira Grande Loja de França (Bauer e Boeglin, 2002).
Essa Grande Loja a partir de 1771 se organiza e, em junho de 1773, forma o Grande Oriente de França, sendo então empossado Louis Philippe Joseph d’Orléans, Duque de Chartres, no cargo de Grão-Mestre da nova potência maçônica.
Nesse contexto é então criado, em Paris, no ano de 1761, o Rito que posteriormente seria conhecido com o nome de Rito Francês ou Moderno, constituído em 24 de dezembro de 1772 e, finalmente, proclamado em 09 de março de 1773 pelo Grande Oriente de França (Abrines e Arderiu, 1962). Na sua fundação, compunha-se apenas dos Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre, adotando também as Constituições de Anderson de 1723.
Na época, havia grande paixão pelos altos graus, surgindo a cada momento novos ritos e novos graus, os quais, na maior parte das vezes, eram concedidos sem nenhum critério, bastando pagar para recebê-los.
Em virtude da pressão dos irmãos, o Grande Oriente de França se viu obrigado a procurar uma fórmula para harmonizar as diferentes doutrinas que vicejavam desordenadamente num emaranhado proliferar de altos graus, por influência da Cavalaria, da nobreza e de misticismos, que serviam à vaidade dos que procuravam a Maçonaria, desfigurando a Ordem.
Assim, o Grande Oriente de França, em sua Assembleia de 27/12/1773, nomeou uma comissão de maçons de elevada cultura para a redação de um regulamento dos Altos Graus, constituída por Bacon de la Chevalerie, pelo Conde de Stroganoff e pelo Barão de Toussaint. O Grão-Mestre Louis Philippe Joseph pretendia coibir a proliferação dos Altos Graus; para tanto a comissão deveria compor um Rito que fosse a síntese do que houvesse de melhor.
Entretanto, nesse ínterim, o Grande Oriente encaminhou correspondências às Lojas Jurisdicionadas, comunicando que elas não poderiam trabalhar senão nos três graus simbólicos, o que acarretou que os trabalhos da Comissão fossem paralisados.
Tal decisão encontrou enorme resistência por parte dos Irmãos da Obediência, levando a que, em 24 de março de 1776, uma segunda Comissão, composta por Guillotin, Morin, Brest de la Chaussée e Savalette de Langes fosse designada, para proceder a uma nova revisão dos Rituais e reforma dos Altos Graus.
Essa comissão também não conseguiu levar a termo os seus trabalhos, fazendo com que o Grande Oriente de França instalasse, então, uma Câmara de Graus em 18/01/1782 e que sob a liderança do Irmão Roettiers de Montaleau concluiu, em 1784, a reforma proposta. No mesmo ano, foram aprovados os Regulamentos e Estatutos do Grande Capítulo Geral da França, responsável pela ordenação do Rito no seio do Grande Oriente de França.
Em 1786 o Grande Oriente oficializou o Rito, assim constituído:
Graus Simbólicos
1º Grau – Aprendiz
2º Grau – Companheiro
3º Grau – Mestre
Graus Filosóficos ou de Sapiência
1ª. Ordem – 4º Grau – Eleito Secreto
2ª. Ordem – 5º Grau – Eleito Escocês
3ª. Ordem – 6º Grau – Cavaleiro do Oriente ou da Espada
4ª. Ordem – 7º Grau – Cavaleiro Rosa-Cruz
Uma 5ª. Ordem é mencionada nos documentos da época, mas ela é exclusiva do Grande Capítulo, servindo de Academia e de coordenação administrativa.
À época e no decorrer do séc. XIX, o Rito Francês designou especialmente o sistema praticado pelo Grande Oriente de França, que foi adotado em 1785 para os Graus Simbólicos e em 1786 para os Graus Filosóficos. Com a publicação do Le Régulateur du Maçon e do Régulateur des Chevaliers Maçons, ambos em 1801, todos os graus do Rito Moderno passaram a ter seus Rituais. Houve um período, em Portugal, no qual o Rito Moderno chegou a funcionar com o Gr∴ 8 (Kadosh Perfeito Iniciado) e até com um Gr∴ 9 (Grande Inspetor).
O Rito Moderno no Brasil se confunde com a própria história do Grande Oriente do Brasil que o adotou como Rito Oficial desde sua fundação em 1822, época em que obteve do Grande Capítulo Francês a autorização para trabalhar os Altos Graus do Rito Francês ou Moderno no Brasil.
Em 1877, o Rito Francês, que havia sido, desde o século XVIII, o principal rito praticado entre os Franceses, com o abandono dos princípios fundamentais da Ordem, perdeu na França a sua regularidade. Naquela data, a prática dos altos Graus do Rito Moderno na França já havia parado, por outras razões.
Em 1952 o Grande Oriente do Brasil transfere para o Supremo Conselho do Rito Moderno, conhecido na época por Muito Poderoso e Sublime Grande Capítulo do Rito Moderno para o Brasil a patente para trabalhar os altos Graus do Rito Francês ou Moderno, tornando assim o Supremo Conselho do Rito Moderno a única e mais antiga potência maçônica mundial a trabalhar initerruptamente, desde 1822, os altos graus do Rito Moderno.
Em 7 de agosto de 1989 o Supremo Conselho do Rito Moderno, conhecido na época por Supremo Conselho do Rito Moderno para o Brasil, emite uma patente de constituição que investe o Suprême Conseil du Rite Moderne pour la France – Grand Chapitre Français, com os mais amplos poderes para estabelecer, desenvolver e dirigir a prática em todo o território da República Francesa e até mesmo em países vizinhos, os altos graus do rito Francês ou Moderno. O Supremo Conselho do Rito Moderno fez renascer na França o Rito Francês ou Moderno.
Atualmente, no Brasil, o Rito está adotando o Gr∴ 8 – Cavaleiro da Águia Branca e Preta ou Kadosh Filosófico (Inspetor do Rito) e Gr∴ 9 – Cavaleiro da Sapiência (Grande Inspetor), ambos pertencendo à 5ª Ordem.
O Rito Moderno, no que diz respeito aos Graus Simbólicos, é o mesmo rito que a Grande Loja da Inglaterra, a dos “Modernos”, praticava antes de sua fusão com a dos “Antigos”. A inversão das Colunas, os modos de reconhecimento no 1º e 2º graus, o início da marcha com o pé direito, a Palavra Sagrada do Aprendiz, eram práticas dos “modernos Ingleses”.
Mas não é apenas isso que distingue o Rito Moderno dos demais Ritos praticados no Brasil. Os padrões do pensamento da Maçonaria Francesa são racionais e científicos, e se prendem à época moderna, ao Humanismo.
O Rito Moderno, que é fruto da Maçonaria Francesa, entende que o maçom deve ter a faculdade de pensar livremente, de trabalhar para o bem-estar social e econômico do cidadão, de defender os direitos do homem e uma melhor distribuição de rendas. Essas tendências filosóficas humanistas é que parecem contrapor-se aos aspectos de religião cultural.
O Rito Moderno não considera a Maçonaria como uma Ordem Mística, embora seus três primeiros graus estejam impregnados da mística das civilizações antigas.
A busca da verdade, transitória e inefável, realiza-se pelo aprendiz na intuição, pelo companheiro na análise e pelo mestre na síntese, num processo evolutivo e racional.
O Rito Moderno mantém-se tolerantemente imparcial, ou melhor, respeitosamente neutro, quanto à exigência, para os seus adeptos, da crença específica em um Deus revelado, ou Ente Supremo, bem como da categórica aceitação existencial de uma vida futura; nunca por contestante ateísmo materialista, mas, unicamente, pelo incondicional respeito ao modo de pensar de cada Irmão, ou postulante. Assim, demonstra apenas a evolução das crenças, estimulando os seus seguidores ao uso da razão, para formar a sua própria opinião, e procura ensinar que a ideia de Deus resulta da consciência e que as exteriorizações de seu culto não passam de um sentimento íntimo, que se pode traduzir das mais diversas maneiras.
O Rito Moderno não admite a limitação do alcance da razão, pelo que desaprova o dogmatismo e imposições ideológicas e sendo racionalista e, portanto, agnóstico, propugna pela busca da Verdade, ainda que provisória e em constante mutação. Da mesma forma, a filosofia do Rito se opõe a qualquer espécie de discriminação.
O Rito Moderno, afinal, é um desafio que vale a pena abraçar.
Texto de autoria do Irmão Antônio Onías Neto



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